Em um relacionamento extraconjugal com a Literatura, por Rafael Caputo
Tudo começou com pequenos flertes aqui e acolá, ainda na juventude. A expectativa era grande e chegamos a nos encontrar algumas vezes, mas o romance não vingou. Depois disso, cada um seguiu seu caminho. Ficamos afastados por um bom tempo. Quarenta anos para ser mais exato. Até que o destino (irônico como sempre) nos uniu novamente. Isso foi em 2017. De lá para cá, investidas despretensiosas marcaram o compasso de nossa relação. Pelo menos, no início. Inevitavelmente, o tesão só aumentou, não posso negar. E vem se tornando cada vez mais potente e irresistível.
Fazendo jus à alcunha de amante, ela me resgatou do cotidiano monótono de uma vida sem graça, me salvando de um vazio existencial sem precedentes. Alguns dizem que isso só aconteceu porque eu estava vulnerável, fragilizado. Outros, afirmam que sucumbi à paixão. Simples assim! Os mais céticos, entretanto, falam da crise dos “enta” para justificar nossos devaneios. Isso mesmo: nossos (no plural), pois estamos nos encontrando às escondidas já faz algum tempo, confesso!
Em muitos momentos, nos vemos de madrugada, na calada da noite, depois que todos já foram dormir. Em outras ocasiões, bem cedinho, antes mesmo do galo cantar e acordar todo mundo. Às vezes, marcamos de nos ver no meio da tarde, graças a uma escapadinha rápida do trabalho, ou na correria da hora do almoço, ou até mesmo na sala de espera de um consultório qualquer, quando dá. Isso explica a intensidade dos nossos encontros. Sei que ela merece mais, muito mais. Digo isso a ela, muitas vezes. Sem falsas promessas, eu juro! A verdade é que, infelizmente, a vida adulta é feita de prioridades. Não somos mais os jovens inconsequentes e imaturos de antigamente. Temos responsabilidades. Por mais que eu queira (e queira muito), não posso simplesmente jogar tudo para o alto a fim de viver uma louca paixão, seria imprudente e insensato. Eu tenho família, filhos para sustentar. Filhos legítimos, não bastardos como os que concebemos. É complicado, eu sei. E dói mais em mim, pode apostar! É claro que sinto orgulho de nossas crias, mas somente orgulho não enche barriga, sejamos práticos.
Não me interpretem mal, por favor! Saibam que, ainda assim, passo os dias saciando minha alma com porres de esperança. Shakespeare que me perdoe, mas me nego a sermos como Romeu e Julieta, prefiro mil vezes Florentino e Fermina, de Gabo. Leve o tempo que for, não importa; com ou sem cólera.
Resumindo, nada mais sou do que um sonhador, um otimista em início de carreira que alimenta uma contida paixão pelo universo literário com a esperança de um dia viver, pura e simplesmente, desse amor.
Quem sabe as coisas não comecem a andar mais rápido daqui por diante? O ano novo já fez a sua parte e nos trouxe um presente: ganhamos um cúmplice. Alguém que se compadeceu (mesmo sem saber) por nosso caso secreto de amor, esse amor clandestino. O chamarei de “Padrinho”, nada mais justo. A convite desse amigo literário, aqui estou eu. Agora, um colunista. Um escritor que segue digitando alucinado, numa tentativa aflita de imortalizá-la com rápidos toques por minuto. Prometo dar a ela toda a atenção merecida. Irei me esforçar como nunca para fortalecer nossa conexão ainda mais. Licença poética à parte, nossa Conexão Literatura.
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